Como era a cidade na data de sua emancipação

             Naquele vinte e seis de agosto foi como um dia qualquer: tudo estava ressequido e o vento norte, como sempre, nesse mês de agosto, levantava poeira incômoda. O pequeno povoado estendia-se em desarrumada e tortuosa formação, acompanhando o córrego Prosa, em confluência com o córrego Segredo. Um rego d’água tirado do Prosa, era a água de todos, pois desses pequenos canais abasteciam as casas. Essa divisão das águas nem sempre era pacífica, desavenças e morte marcaram a existência do condomínio.
            José Antônio Pereira havia construído sua casa um pouco isolada, talvez pelo seu temperamento isolado. Na verdade, no dia da emancipação da vila, José Antônio já tinha mudado com sua família para sua fazenda Bom Jardim,cego, isolado e esquecido, morreria cinco meses depois da emancipação.
           As moradias eram todas de taipas e cobertas com telha de barro. Eram casas baixas, atarracadas, telhados de quatro águas e sem varandas. Abrigavam famílias, comercial, bolichos, bares e prostíbulos.
            Naquele histórico 26 de agosto, como sempre, a vila acordava cedo. Pessoas se dirigiam às  roças, nas casas de comércio, donos e empregados tentavam dominar a poeira acumulada na noite. Em frente ao cabaré, um homem amanheceu de bruços entre manchas de sangue. As crianças que iam para a escola, passavam ao longe, evitando o morto, logo chegariam a escola onde, uma voz forte e rouca de José Rodrigues Benfica, o primeiro professor da vila.
             Umas tropas de burros, tocada por dois piões, passos acelerado, os animais desviam do morto, os peões deram uma rápida olhada para possível identificação. Dois cachorros, pararam, cheiraram o corpo e logo seguiram ao mesmo caminho.
              E assim passaram: cavalheiros bem montados, vaqueiros bêbados que pararam, desviraram o corpo para identificação e seguiram seu caminho.
               Chegando a hora do almoço o morto continuava exposto ao sol. Temendo o mal cheiro, a proprietária do cabaré ordenou ao empregado que pegasse o cavalo para pegar o morto.
               Nesta época, na pequena vila, matava-se com certeza da impunidade. No bolicho do seu Sebastião Lima, apareceu um desconhecido para comprar uma arma. Queria um 38 e caixas de balas. O homem pegou a arma carinhosamente com a alegria de uma criança que ganhava um presente. Pagou 200 mil réis, encheu o tambor e num gesto rápido,apertou o gatilho, derrubando um velho que passava a cavalo. Voltou-se para o bolicheiro e deu mais 50 mil reis “para pagar o enterro e as velas”. Em frente do mesmo bolicho, Pedro mineiro, valentão de fama, matou três policiais, entrou no bolicho e pediu uma pinga, tomou-a sem pressa e saiu a passos lentos.
         Um caso feminino: Dona Guilhermina teve seu filho assassinado na fazenda Lagoinha. Foi até lá de carroça buscar o cadáver, após o enterro iniciou implacável vingança, conseguiu localizar e matar, dia após dia os quatros assassinos, um de cada vez. Satisfeita, dever cumprido, vestiu-se de vermelho para sinalizar sua alegria e saiu de casa em casa aliviada dando notícia do sucedido.  Agradecia a Deus por ter lhe dado forças para fazer justiça.
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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