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As mãos de Lucia



Pray


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Flowers

Argus Cirino

"Morreste! como aurora sem poente,

Como flor que perfume ainda exalava.

Como o sopro da brisa recentemente,

Como a onda que apenas se formava".

Gonçalves Dias

 

Eu temia a amargura.

E ela veio e prostrou-me, transformando a minha vida.

Eu detestava o mutismo.

E meus passos foram tragados por ele.

E hoje, vivendo da sombra do que fui, recordo três momentos que duraram uma eternidade; três lembranças que marcaram para sempre meu coração.

A primeira vez que vi as mãos de Lúcia, foi num singelo cumprimento de formal apresentação. Elas eram quentes e lisas ao contato, suaves e macias como a penugem de uma gazela branca.

Pode alguém apaixonar-se por um ato de casualidade?

Eu me apaixonei.

E daquele dia em diante, senti naquelas mãos o prolongamento das minhas próprias mãos. Acima de tudo: senti que elas eram minhas, somente minhas...

E foram.

A segunda vez que vi as mãos de Lúcia, foi quando seus dedos finos , nervosos, enrolaram-se nos meus cabelos, atraindo o meu rosto junto ao seu. Então, coisa inacreditável experimentei, pela primeira vez na vida, do cálice cristalino das virgens, o néctar do mais puro e santo amor!

Éramos uma só alma, vivendo a angústia da separação de dois corpos...

E fomos felizes, o céu é testemunha...

E a terceira vez que vi as mãos de Lúcia, foi num gesto de adeus, elas estavam lívidas, frias, silenciosas, postas em prece. Meu peito foi rasgado pela mais profunda e dolorosa cutilada do desespero ...

Essa foi a última vez que vi as mãos de Lúcia.

Nunca mais vi outras mãos.

Nunca mais encontrei outro amor.


Pray

 


                                                                                                                  

 

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