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Aos meus colegas deficientes



Se não podes mais lavrar a terra
há terrenos interiores
que se revolvem
e frutificam
mais demoradamente...

Se não podes mais correr
atrás da bola olha,
há bolas de luz
e metas infinitas
onde não se perdem gols
e não se batem pênaltis.



Se não podes mais manejar máquinas
há dentro de ti
alavancas invisíveis
que se movem com o querer
e que locomovem
engrenagens mais profundas
e mais benditas.

Se não podes mais levantar-te dessa
cama ou dessa cadeira
levanta tua alma aos que estão de pé
caindo diante de ti.

Se não podes mais ver a luz do dia
ou sentir a melodia do vento,
olha pra dentro das pessoas
que andam por aí
 quais mariposas atordoadas
morrendo de olhos abertos
diante de mil sóis pelas estradas...
E dize-lhes que mais para dentro
há uma luz suave,
tão suave e uniforme
que é Paz e Hino
em que tu podes
com teus braços inertes
mergulhar para abraçar
mil ombros fortes,
em que teus olhos mortos
emergem enchendo de luz
olhares tristes...
Em que tuas pernas prostradas
levantam mortos pelo caminho.

Sê como o sabiá a quem a vida negou
lindas plumagens
e da sua tristeza arrancou
ecos de céu mais lindos ainda.

             

Lino Villachá