Prece das mãos leprosas
Prece das mãos leprosas que agradecem
Essas mãos, Senhor,
que não sinto minhas;
essas mãos simiescas,
engruvinhadas
ao longo de mim,
dantescas,
como se eu fora algo
que secara por inteiro.
Ah, essas mãos, insensíveis
e desfeitas,
que pedem em gestos mortos
têm viva a alma
e sentem a Vida e o Calor
das mãos que as estreitam
e afagam...
Colhem ao luar
a melodia em neve de Luz
e poesia.
E, sobretudo,
estas pobres mãos em prece
encurvadas pela dor e contritas,
percebem o sonho de umas mãos
terníssimas
a cobri-las e a afagá-las...
Ao estendê-las,
a vós, Senhor, com carinho,
agradeço-vos porque
imersas na vossa Luz
as ausências dolorosas
destes dedos decepados
vão deixando cair estrelas
pelos vazios dos caminhos...