LINO VILLACHÀ era filho de um espanhol da Galìcia (da pequena Villa Chá, daí o sobrenome) e de uma jovem russa, Anna Eudochack, imigrantes colonos em Terenos.
Aos 12 anos teve início sua Via Crucis. O bacilo da Hanseniase atingiu sua família. Assim pai, mãe e três dos cinco filhos tiveram que ir para a antiga Colônia São Julião. A infância livre no bairro São Francisco, a escola, o velho caminhão de lenha do pai, tudo isso foi trocado pelo isolamento daquilo a que estava reduzida a colônia.
O Hospital São Julião, inaugurado em 1941,fazia parte de um grande projeto de Getùlio Vargas.
Mas, de hospital-modelo, havia se transformado numa cidade-fantasma, abandonada à própria sorte. O menino esperto, inteligente e curioso, cresceu convivendo com grandes pessoas escondidas atrás da máscara do sofrimento, que abriram seu coração a ele e passaram o melhor de si. Foi assim que, diante dele foram passando figuras extraordinárias como o "seu Botto", o professor, Maria, o velho Estanislao, Feliciana, que fizeram de Lino um cronista de seu tempo.
Em 1970, a antiga colônia passou às mãos de um grupo de, hoje diríamos "betinhos" - que fundaram a Associação de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos.
A AARH mudou totalmente aquele "depósito de doentes" como era chamado, no mais moderno hospital de Hanseníase do país.
Lino embarcou junto nesse processo de evolução desde a primeira hora. Fundou uma liga esportiva, organizou campeonatos de futebol, comemorações, ensinou, aprendeu e viveu intensamente.
As décadas de 50 e 60 tinha muito pouco a oferecer para os hansenianos: remédios, quase não havia, a doença, mesmo milenar ainda era pouco conhecida.
Havia sim, muito medo e o confinamento (por lei) nos leprosários.
Mas, como diz o Evangelho: "Lino crescia em graça e sabedoria".
Em contrapartida, seu corpo sofria os ataques violentos do bacilo.
Teve que amputar uma perna, depois a outra, as mãos se atrofiaram, os movimentos ficaram cada vez mais limitados, os rins já não conseguiam filtrar quarenta anos de remédios, cirurgias.
Só que ele seguia em frente, forte, lúcido, criativo, sempre agitador.
Era o diretor da Escola, amarrava um lápis nas mãos em garra e datilografava poemas, entrevistas, crônicas, saudações aos amigos e autoridades.
Logo depois passou para o computador, trabalhava na secretaria do hospital com dados, estatísticas, relatórios.
Editou seis livros, publicados no Brasil e na Itália. Conquistou o respeito e a admiração de todos quantos puderam conhece-lo pessoalmente o ao seu trabalho.
Casou-se com Zena Maria em 1987 e dela teve amor e dedicação até o seu último momento. Zena foi seu anjo de guarda que ficou.
Lino Villachà também è o nome das escola do Bairro Nova Lima e também da rua de acesso ao Hospital.
Foi enterrado no Hospital em 11 de julho de 1995, às 11 horas, ao lado de muitas arvores, como ele pediu, num texto escrito numa manhã esplêndida de sol forte, céu limpo e muito verde. |